
Desde o dia 20 de julho sou fiel depositário dos óculos do amigo Célio de Castro. Recebi esse belo presente de sua família, quando estávamos reunidos em memória do primeiro aniversário de sua morte.
Faltaram-me palavras de agradecimento por tão elevada homenagem. Difícil descrever a emoção de tê-los comigo, evocando a bela presença do amigo. Vai ser uma presença permanente e certamente estarei lendo alguns textos com esses óculos do Célio com o olhar dele.
Os óculos têm uma dimensão simbólica. Resgatam-me logo a lembrança de Miguilim, que começa a ver o mundo quando o tio vai com ele na cidade, faz o exame de vista e ele descobre que o mundo é muito mais amplo, mais iluminado, mais colorido do que percebera até então.
E foi justamente para reforçar o desejo de ampliar a visão que batizamos, na Prefeitura de Belo Horizonte, em 1993, o Projeto Miguilim, voltado para crianças pobres de BH. Lembro-me como se fosse hoje: Célio, vice-prefeito, havia assumido também a Secretaria de Desenvolvimento Social e nós havíamos elegido a criança, especialmente a criança pobre, com ênfase nas crianças com trajetória de rua, a nossa prioridade.
Célio me falou que o sonho dele era que as crianças de rua, as crianças pobres pudessem ampliar seu olhar sobre a vida, expandir a consciência e o olhar.
Eu e Célio compartilhávamos forte cumplicidade mediada na obra de Guimarães Rosa. Quando estávamos na prefeitura, ele me deu de presente de aniversário a primeira edição de “Sagarana”, de 1946, com uma dedicatória belíssima.
São essas sutilezas familiares que me tocam o coração. Hoje estou aqui, de posse desses óculos que pertenceram a um homem de tantas e tão belas leituras…
Célio de Castro foi um homem que acreditou na palavra, no diálogo. Na construção de pontes entre os homens. Não há dúvidas de que ele está presente entre nós.
Na tradição cristã cultivamos a dimensão da ressurreição, que está vinculada à categoria da presença, como bem definiu um filósofo cristão, existencialista, Gabriel Marcel.
A presença, referência fundamental para Marcel, é também a busca de quem diz: “Não morreu”.
Nosso compromisso é reafirmar: um homem como Célio veio para ficar, pela sua vida como médico, político, estadista, humanista, como homem de cultura, homem de letras.
Façamos este pacto: Célio de Castro ficará presente e vamos pensar sempre nele, testemunhá-lo. Com certeza, cada vez que tivermos o Célio presente, seremos um pouquinho melhores.
E que este presente lhe dê ainda mais Visão e Força de vontade para a construção de uma Minas Gerais mais humana… Um grande abraço
Parodiando Zé Rodriz, meu tio Célio era a esperança de óculos. Não podemos esquecê-lo nunca. Que suas ideias e ideais perdurem por muitas e muitas gerações.
Naquela noite de 20 de julho de 2009 em que a voz do meu pai ecoava pelos cantos da casa dos jornalistas da mesma forma amigável, solidaria e confortante de sempre, pude observar os olhares de saudade e a esperança de que novos tempos viram, como se cada um dos presentes ao evento fossem sementes dos ideais de igualdade, solidariedade e justiça que tão bem ele cultivou. Os óculos que foram entregues ao amigo Patrus com amor e carinho, simbolizam não somente a ampliação da visão da alma, mas também um pedido para que o povo seja visto de maneira humana e respeitosa, e que os sonhos do Dr. Célio brotem em cada uma das sementes cuidadosamente preparadas.
Abraços
Rodrigo do Célio de Castro